MENINO DE RUA
Mas traz no rosto as marcas
De quem já viveu muito mais.
Você, com esta arma na mão,
Diz que vai me matar
Se não lhe der tudo que tenho.
Eu o compreendo.
Que foi que eu fiz quando você ainda criança
Vivia abandonado na rua: sem casa
Sem comida, sem escola e sem carinho?
Que foi que eu fiz
Quando você pedia para engraxar meus
sapatos,
Limpar o para-brisa do meu carro
Ou simplesmente implorava uns trocados
Para comprar pão?
Será que o levei para minha casa,
Ofereci-lhe comida, roupas,
Uma cama para dormir, um teto para se abrigar
E paguei uma escola para você estudar?
Será que protestei junto às autoridades
responsáveis
Por não aplicar os recursos arrecadados
Para tirá-lo da rua e dar-lhe condições de
crescer
Forte, sadio e protegido?
Será que ao menos derramei uma lágrima
Por vê-lo naquelas condições?
Não! Eu não fiz nada disso!
Eu simplesmente afastei-o com um gesto
contrariado
E segui meu caminho, enganando a mim
mesmo
Dizendo que não era meu o problema.
Agora descubro, tarde demais,
Que devia ter feito alguma coisa por você,
Para evitar o que está acontecendo neste
momento.
Você, sofrido, maltratado, perseguido,
Odiando toda humanidade
Por ter lhe negado tudo que você tinha direito.
Você, desesperado, marcado
Para morrer de forma violenta,
Cobrando uma dívida que não tem tamanho.
Você, a vítima. Eu, o criminoso.
No tribunal da minha consciência
Sou culpado de omissão e estou pagando por isso.
RBF
15 de setembro de 1983.
Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY-NC-ND
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